Pedágio nas BRs 060 e 452: O Custo da Modernização para Quem Vive no Interior
Em maio, motoristas que usam as BRs 060 e 452 — as duas principais rodovias entre Goiânia, Itumbiara e Rio Verde — vão começar a pagar pedágio. O valor sai entre R$ 3,90 e R$ 11,80 por passagem, dependendo do pórtico.
Para quem tem pouco, é mais um custo. E a lista é longa: pequenos produtores rurais, transportadores autônomos que trabalham por conta, trabalhadores que saem do interior todo dia para ganhar a vida em outro município. A tecnologia é moderna, a estrada vai melhorar. Mas quem vai pagar a conta?
O Novo Sistema e as Tarifas
A concessionária Rota Verde Goiás implantará um sistema de pedágio eletrônico (free flow) com oito praças entre Goiânia e Itumbiara, com tarifa média de R$ 7 para veículos de passeio. O sistema dispensará paradas, funcionando por pórticos com câmeras e sensores que identificam placas veiculares automaticamente.
Para quem tem recurso, existem incentivos: motoristas com TAG (dispositivo eletrônico) terão desconto básico de 5%, aumentando progressivamente até 90% para usuários frequentes do mesmo pórtico ao longo do mês. Porém, essa realidade é distante para boa parte do interior.
Quem Paga a Conta: A Realidade do Interior
Os Transportadores Autônomos
Nos pequenos municípios ao redor de Rio Verde — Abadia, Indiara, Acreúna, Santa Helena, Bom Jesus e Itumbiara — a notícia caiu como mais uma pedra no bolso. O prefeito de Abadia de Goiás, Wander Saraiva, pediu isenção para quem se desloca todo dia à capital para trabalhar, estudar ou ir ao médico. Ele reclamou que ninguém consultou o município.
O protesto faz sentido. Um trabalhador que ganha entre R$ 1.500 e R$ 2.500 por mês agora precisa reservar dinheiro só para passar pela rodovia. Um transportador autônomo que faz várias viagens por semana vê as margens desaparecerem — mesmo com descontos, a conta cresce.
Pesquisas mostram que os custos de transporte subiram muito para quem trabalha em uma cidade mas vive em outra. Isso afeta principalmente quem não tem opção: o trabalhador que não pode escolher morar perto do emprego.
Produtores e o Escoamento da Safra
Rio Verde tem PIB de mais de R$ 22 bilhões. É a 4ª maior economia de Goiás, produz soja, milho e carne em escala industrial, e responde por quase um terço das exportações do estado. Tudo passa pelas BRs 060 e 452.
Mas os números escondem a fragilidade por trás. Faz pouco tempo, em abril de 2026, o frete agrícola subiu 35% em um mês na rota de Catalão para Araguari. O diesel disparou para R$ 7,89 em Rio Verde — preço inédito. Os transportadores estão saindo do mercado porque a margem desapareceu.
Agora chega o pedágio. Num momento em que o produtor já está apertado, mais um custo sai de seu bolso.
A BR-452 sempre foi a estrada da zona rural — pista simples, sem duplicação, carregada de caminhões com grãos e insumos. Com o boom agrícola, virou um gargalo. Tinha que melhorar. Os produtores sabiam disso. Só que melhorar tem preço.
O Que De Fato Vai Melhorar
Há benefícios reais na história. A Rota Verde vai investir R$ 7 bilhões no trecho todo: 31 km de duplicação, faixas adicionais, passarelas, pontos de ônibus e passagens de fauna. A empresa já meteu R$ 100 milhões do próprio bolso.
Abriram atendimento 24 horas — guincho, mecânico, inspeção de trânsito. Tem conexão 4G agora no trajeto. A estrada respira melhor.
O pedágio eletrônico sem parada ajuda mesmo: sem filas, carrega passa mais rápido, menos acidente. Quem trabalha nessas praças não será demitido — vai trabalhar com monitoramento, análise de dados, controle. Seguro, mais qualificado, menos perigoso que estar numa cabine coberta de diesel.
A Questão Incômoda
A tensão é clara: precisa modernizar. Mas quem paga?
Um trabalhador que ganha R$ 2 mil por mês e passa duas vezes por semana no pórtico paga pelo menos R$ 56 mensais — sem contar atrasos ou multas. Para alguns, é a diferença entre manter o carro ou vender.
Um relatório recente da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) alerta que transportadores autônomos estão desistindo. As margens desapareceram. O pedágio piora a situação.
Se Você Não Tem TAG
A maioria não tem TAG. Para quem não tem, o jeito é mais chato.
Você passa no pórtico, a câmera capta sua placa. Depois tem 30 dias para pagar — por aplicativo, site, PIX ou cartão. Simples, mas requer disciplina.
Não pagar no prazo vira infração grave: multa de R$ 195,23 e cinco pontos na CNH. Para o motorista apertado, é complicado. Uma multa somada ao pedágio pode esvaziar o mês inteiro.
O Que Muda em Maio
A cobrança do pedágio eletrônico nas BRs 060 e 452 deve começar em meados de maio, em data ainda a ser confirmada pela ANTT. O sistema será free flow, sem paradas nas praças — as câmeras registram automaticamente as placas dos veículos no momento da passagem.
Os pórticos estarão em oito locais:
- BR-060: Goiânia, Abadia de Goiás, Indiara e dois em Acreúna
- BR-452: Santa Helena de Goiás, Bom Jesus de Goiás e Itumbiara
No Cruzamento de Dois Tempos
A população do interior — produtores, motoristas, trabalhadoras domésticas que saem de Abadia todo dia — vive uma encruzilhada. A estrada precisa melhorar. Mas quem paga?
Rio Verde cresce, puxa 31 municípios ao redor. Mas esse crescimento depende de estradas. E agora depende de dinheiro que nem todo mundo tem.
A questão não é se as estradas devem melhorar. A resposta é óbvia. A questão é quem bancou isso até agora. E quem vai bancar daqui para frente.
Serviço
Pedágio começa em maio nas BRs 060 e 452
- Tarifa média: R$ 7 para veículos de passeio (veja tarifas aqui)
- Descontos para TAG: 5% inicial, até 90% para usuários frequentes
- Motocicletas: isentas
- Pagamento: Com ou sem TAG, pelo aplicativo, site ou totens de autoatendimento
- Prazo para pagar: até 30 dias após a passagem
- Multa por atraso: R$ 195,23 + 5 pontos na CNH
Mais informações:
- Site: Rota Verde Goiás
- Aplicativo: Disponível para consulta de placas e pagamento
- ANTT: www.antt.gov.br
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